terça-feira, 20 de janeiro de 2009

VII - Prisão e Liberdade



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

Acordei com um sobressalto e qual não foi minha surpresa e espanto ao me ver encarcerado. Saltei rapidamente de minha cama e, tomado de um desespero convulsivo, fui tateando todo o ambiente com a intenção de encontrar alguma saída entre as grossas e gélidas grades de ferro, malditas garras negras contra as quais eu nada podia fazer. Eu realmente estava preso. Que absurdo poderia ser aquilo? – pensava eu beliscando-me de maneira ridícula para certificar-me de que não estava tendo um pesadelo, o que, em seguida e para meu total desapontamento, revelou-se que não; estava desperto, mais acordado do que nunca! Não conseguia raciocinar direito, contudo, de minha mente jorrava os mais diversos e bizarros pensamentos. Não podia enxergar um palmo além de meu nariz, tal a densa escuridão que me envolvia. Resolvi retornar para a cama e aguardar até que alguma boa alma me explicasse o que eu fazia naquele lugar deplorável. Mas, por uma grande dose de sorte e pelo fato de minha visão já ter se ajustado de maneira minimamente razoável para toda aquela escuridão, consegui entrever algo fino e azulado embaixo de minha cama, talvez uma vela, pensei esperançoso, o que acabou se concretizando. Tateei em volta de onde estava a vela e facilmente encontrei uma caixa de fósforos, o que me deixou muito satisfeito. Prontamente, acendi a vela e pus-me a meditar sentado sobre a cama, abraçando os joelhos, cabeça enterrada entre eles. Tremia de frio e medo.

Estava completamente perplexo. O que eu estaria fazendo naquele lugar?

VI - Amor e Sacrifício



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

Mateus já estava no trem que o levaria até o Grande País. Sua mente estava terrivelmente descontrolada, pois ele sabia onde estava indo, mas, por algum motivo obscuro, não sabia direito o que iria fazer lá, mas mesmo assim continuava indo, meio querendo, meio não, como se aquela aventura o desse uma espécie de prazer, como se aquela aventura o excitasse. Sentia o prazer angustiante de ser tentado, de lutar contra si próprio.

E sua mente continuava a rodopiar pelo infinito; e a angústia crescia a cada momento, trazendo consigo um medo enorme, um medo de tudo o que o circundava. Começou a chorar, pensando fervorosamente:

“Deus, Deus, por favor, se você existe, por favor, manifeste-se agora, de qualquer jeito, por favor, não me deixe na mão, só, desolado... Por favor, Pai, preciso tanto de ti, por favor, estou te pedindo, humildemente... Por favor... Qualquer sinal, qualquer um... Por favor... O que mais eu preciso fazer?”

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

V – Um sonho......?



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

Minha boca está seca. Não lembro a última vez que a usei para falar. Não tenho mais olfato, meus ouvidos nada ouvem e meus olhos estão endurecendo. Tudo aqui é muito frio – e já os vejo: inocentes, a me olhar, suplicando-me, estaticamente, nada se mexe, morte. Assusto-me: vejo a mim, estou entre eles (ou será apenas um reflexo na parede gélida? – não confio em meus sentidos).

Neve, neve e mais neve – neve por todos os lados. Um céu cinza-azulado cor de lápide. Troncos de árvores sem folhas. – Ligações de Hidrogênio – amarram-me. Como me dói respirar; como me corta esse ar. Estou descalço – acabo de perceber – e meus dedos todos feridos: os dedos subindo uns nos outros. Não sinto dor – talvez por ter ultrapassado o limite, o meu limite. Talvez já esteja morto. Talvez este seja o outro mundo. Talvez tudo isso não passe de um sonho. Sim, pois não deixa de ter o seu fascínio, mórbido fascínio. Existem pessoas que combinam mais com a morte.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

IV - Conspiração e Fuga



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

Efetivamente, às quatro em ponto, Mateus chegava na sala onde Dario mantinha suas reuniões políticas, uma sala tão tenebrosa quanto a primeira. Bem em seu centro havia uma rústica mesa de uma madeira vermelha como o sangue, com pequenas cadeiras tripé, todas de madeira também, ao seu redor; e a uns quarenta centímetros acima da mesa havia, pendurado por um contorcido e longo pedaço de fio cinza-escuro, uma lâmpada de uma luz amarelo-opaca que ficava, a todo momento, apagando e acendendo, ora mais brilhante, ora menos, como se fossem raios prenunciadores de uma grande tempestade de um céu terrivelmente carregado. A sala era de uma escuridão tal que parecia que a mesa estava posta em uma ilha no meio do infinito, visto que não era possível ver e nem tocar as paredes da sala, dando um aspecto adimensional para o lugar.

Tadeu e Dario já estavam sentados, apenas aguardando a chegada de Mateus. E logo quando este entrou na sala, mesmo vendo os rostos enigmáticos daqueles dois imersos na sombra, sendo lampejados de tempos em tempos, nada disso o assustou tanto quanto ver uma arma no centro da mesa, como se aquilo fosse a concretização de uma intuição que ele já temia e o angustiava.

- Que arma é essa? – perguntou Mateus aterrorizado.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

III - Confissões de um Assassino



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

Preciso confessar algo que não consigo mais segurar: estou planejando um assassinato – ou melhor, vários. Na verdade, escrevo para matá-los, a todos eles! Escrevo para me curar de uma doença que o mundo me deu; e que o meu peito, em toda sua fragilidade, não agüenta mais possuir. Sinto com toda força que minha alma anseia pela morte deles – tanto que esse pensamento se tornou uma obsessão, uma adaga em meu corpo adoecido. Mas tenho medo, tanto medo quanto uma criança no escuro, que não sabe onde pisar, que já perdeu o seu norte e, tudo o que lhe resta fazer, é se agachar, chorar e esperar – esperar a vinda de algum anjo iluminado daquela luz branca, leve e reconfortante, para que esse ser nos possua em toda sua magnificência e nos encaminhe para o nosso destino certo, para onde quer que seja, contanto que estejamos embalados pela confiança e o amor. Temo demais que eu possa me arrepender, que eu, no fim, acabe sentindo pena deles, pois eles ainda são sinceros, cada um no seu ponto de vista - mas são sinceros. Para ser mais exato, o ser humano é um ser inocente; não se pode culpá-lo de nada, pois ele apenas acredita, e o acreditar causa tanta dor... Se há algum culpado, certamente este é o destino humano, o progresso e a razão. Temo ainda que eu possa acabar sentindo pena de mim, que sou tão jovem, pois eles são a Vida, apesar de tudo. Oh, como estou arrependido!, antes mesmo do fato consumado. Pois aqui eu sou um deus; o meu poder sobre eles é infinito, pelo menos em tese; e estou levando-os para a morte certa, para a ignorância e escuridão. Estão todos cegos – por minha causa. Vocês podem me dizer se isso é justo? Alguém aí pode me dizer a Verdade? Que angústia! Que angústia é essa que dilacera a minha alma? Não faço isso por sadismo! Juro a mim mesmo e a quem quiser, que o que ocorre aqui é totalmente o contrário. Não pensem que esse é o meu Coliseu particular. Eles são meus filhos, minha força vital. Matando-os, estou morrendo; deixando-os viver, também...

Vocês agora entendem a minha dor? O grande conflito pelo qual estou passando? Eu sou eles; eles sou eu. E somos todos fragmentos perdidos no tempo e no espaço, unidos por alguma mágica cósmica e separados pela matéria – essa nossa inimiga a qual todos estamos submetidos. Minhas mãos estão tremendo, sob o peso da espada afogada em sangue; e meus músculos, todos fragilizados; e as lágrimas, escorrem de minha face toda molhada. Estou agora deitado na terra batida e encharcada pela chuva e se não fosse pelo sangue, talvez este seria um momento agradável, pois gosto muito do cheiro da terra molhada. Terra e Água são as mães da Vida. E o Amor é irmão do Ódio. Ligados um ao outro pela sua essência gêmea; um espírito que se manifesta duplamente; uma mulher que possui um vestido de Sol e de Chuva. Vida e Morte. Uma tão amada, outra tão odiada. As duas, irmãs e amigas íntimas. Viver é morrer... e há quem diga que morrer é viver. O que se pode entender em um Universo de Opostos?

Mas vou parar por aqui: estou confuso; minha escrita está confusa. E também não estou me sentindo bem... mas, afinal, que assassino confesso se sentiria?

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

II - Um Monólogo Fantástico (parte 2)



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

- Tadeu, eu estava pensando sobre essa maldita apatia – disse Márcio em tom sério -, e cheguei a certas conclusões: o ser humano possui basicamente duas facetas, a exterior e a interior. Se quisermos nos manter em um estado bom, temos que satisfazer os dois lados. No entanto, o mundo atual, o mundo da supereficiência, deseja nos tomar todo para ele e, então, chegamos a um ponto de tensão: o eu quer expulsar o mundo porque este quer nos mecanizar e nos controlar, e o mundo quer esmagar o eu porque este quer se espiritualizar; e ainda por cima no eu reina a lógica do caos, e essa tormenta, que fantasticamente pode nos levar a qualquer lugar, tomando qualquer forma, assusta a ordem não menos caótica do mundo exterior. Mas analisemos as duas opções: se você fugir totalmente do mundo, como você está tentando fazer, você acabará entrando em um estado neurótico que lhe destruirá; se você viver apenas para o mundo, o seu eu ficará descontente e você passará a viver estressado e indisposto o tempo todo, terminando por falhar nas duas facetas. A ânsia que esse mundo possui de nos mecanizar a todo custo provoca essa radicalização da nossa parte, fazendo com que nos refugiemos no eu atrás de barricadas e trincheiras, com a intenção de destruir totalmente esse mundo exterior. Essa é a sua falha, Tadeu.

- Não! Não é isso – interrompeu bruscamente Tadeu. - Estou apático porque o mundo me é totalmente adverso e isso esgotou todas as minhas forças. Fiquei preso em um processo de introspecção que consumiu as minhas energias e agora não sei mais como me recuperar. Esse é o ponto. Por que mecanizado? Eu não faço nada na maior parte do meu dia. Não há razão para eu achar que o mundo me mecaniza. A questão não é de mecanização, com certeza. É algo mais profundo.

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domingo, 4 de janeiro de 2009

I - Um Monólogo Fantástico (parte 1)



(Em função da futura publicação de "O Mundo como Fantasia", estarei deixando uma pequena parte apenas dos textos aqui postos! Agradeço a compreensão, amigos leitores)

- Acreditem em mim, tudo é fantasia, nada mais do que simples fantasia... – Assim iniciava Márcio, com um sorriso de satisfação, a mesma discussão, novamente, no pequeno grupo dos jovens “excêntricos e desajustados”. Eles se encontravam periodicamente em uma minúscula e tosca saleta, a qual exalava de suas paredes, meio esverdeadas, meio amarronzadas, um asfixiante cheiro de mofo. Aquele altar de reverência ao ser humano, ora quente e abafado, esgotando a energia do mais atlético dos homens, ora gélido e úmido, o que terminava por se traduzir, às vezes, em assustadores arrepios e involuntárias contrações, era um ambiente pouco iluminado, onde sobrevivia apenas uma névoa de luz, dispersa por causa do pó, como se fosse uma espécie de gás quente e rarefeito, havendo a impressão de empurrar a luz para longe quando esta era tocada; essa névoa de luz penetrava a sala por uma pequena e quase opaca janela, no alto da parede, que dava para um belo jardim, freqüentado por idosos e crianças que corriam, estas, atrás das pombas. Próximo à parede da janela havia um colchão, desbotado e amarelado, onde estava sentado Márcio; os outros integrantes estavam todos em rudimentares cadeiras de madeira, formando um semicírculo de frente para o colchão. O que unia todos eles naquele lugar repugnante me é um mistério, mas algo muito sutil com certeza os unia – e eles a mim.

- Como vocês acham que são criados Joanas D’Arcs, Alexandres Magnos ou até meros capitalistas, hein? – continuava Márcio, gesticulando violentamente com as mãos. - Eles fantasiam, se julgam enviados divinos, reis do mundo, capitalistas, então, práticos como são, crentes da possibilidade do que acreditam, começam a concretizar as suas fantasias, e como há um retorno de resultados, eles passam a acreditar que aquela é a verdadeira realidade. E assim uma pessoa que deseja ser o rei do mundo, um sonho, digamos, até infantil, muda a história de nosso querido planeta!

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